Podemos aprender com o renascer diário; podemos nos descobrir com o viver de cada um, com nosso viver. Não renascemos a cada dia ao acordarmos? Engana-se aquele que se imagina renovado ao nascer. Não se renova ao nascer, renova-se ao modificar-se, e esta é a essência da natureza, o eterno mudar, seja em que nível for. Nosso pensamento é estreito, não consegue enxergar além das memórias de uma vida, nega o eterno dom do aprender. Não se aprende com um objetivo de chegar-se a algum lugar, o existir não tem endereço de chegada, nem de partida. Fosse assim não haveria motivo existencial para ninguém, para nenhum ser. Observe o inicio de cada coisa, suas mudanças incondicionais, involuntárias, fato sobre o qual não temos controle. Podemos nos dar conta de que mudamos a despeito de nossa vontade, e isso nos facultaria a compreender o porquê existimos.
Existimos simplesmente porque precisamos mudar, não fosse assim, acreditem, não existiríamos, não haveria motivo. O plano perfeito e concluído chegaria ao fim de sua existência. Um universo imutável seria um universo morto. Nasce o universo com uma proposta de renovar a si mesmo. Ele nunca renasce, pois o renascer o anularia, mas antes disso ele se modifica, e isso parece renascimento. Como poderia ele apagar-se para reconstruir-se? Aquilo que foi feito não poderá ser desfeito, fosse assim, tudo seria estático, finito, morto.
Desfeito e Feito não são aspectos polarizados, ou opostos de uma mesma coisa, mas antes disso, as características inatas de tudo que existe. São atributos de todas as coisas creadas, ou criadas, é a lei do movimento progressivo, inflexível, imutável em seu aspecto como lei, responsável por todas as mudanças.
Aquilo que nasce não pode ser apagado; não pode ser desnascido. Aquilo que se crea, o foi para ser alterado, aperfeiçoado, ir e vir, pois esse é o processo de renovação do universo. Um alento não pode se tornar desalento, isso seria a anulação de si mesmo, o fim do próprio universo. Cria-se com o propósito de melhorar-se, de ser mais e nunca menos. Do mesmo modo que o mais não pode se tornar menos, o menos é o ponto de referencia para o ser mais.
Nascer é renovar-se, mas aquilo que é renovado precisa deixar de lado o aspecto que não mais lhe serve. Lapida-se um diamante não pela inclusão de mais arestas, mas pela suavização dos seus excessos. Aquilo que é jogado fora tem sua utilidade, mas não para a jóia lapidada.
Não podemos ganhar sem perder alguma coisa, essa é a verdade das coisas creadas. Segure uma pedra em uma das mãos e sinta que a ganhou. Perde ali sua utilidade, nada mais há para se conquistar. Você perderá a utilidade de sua mão se a mantiver segura. Ganhará novamente a liberdade ao deixá-la de lado. Terá aprendido, no entanto, a verdade da creação, onde tudo que se cria, tem por única finalidade perder a si mesmo para se ganhar.
Autora: Ester Cartago.
A autora é psico-orientadora, antropóloga e também escritora.
Mais artigos da autora em http://www.sitededicas.com.br/holistica_escola_index.htm

